- Oh Manel, tens de ir trabalhar, tens de pensar no teu futuro.
O Manel estava mais preocupado com o seu presente. Terminado o seu percurso escolar iniciava agora o seu percurso pessoal e humanitário. Ninguém reparava, mas o Manel era feliz, tinha o essencial e nada mais, crescia como homem a cada dia e trabalhava interiormente o seu futuro. Mas, finalmente, chegou a hora, o Manel arranjou um emprego, era contabilista numa empresa lá da aldeia.
- Oh Manel, finalmente, muitos parabéns. - diziam-lhe os transeuntes - Mas olha que aquilo é fábrica pequena, tu mereces e consegues mais.
Mas o Manel era feliz na fábrica pequena, e por lá continuou a crescer como homem, e a aprender como profissional. E chegou o dia em que o patrão, muito satisfeito com o desempenho do Manel, o convidou para acumular trabalho numa outra empresa de um amigo, era maior e apresentava maior perspetiva de um melhor futuro profissional. O Manel aceitou e ficou com dois empregos. Entrava às 6 da manhã na fábrica pequena e trabalhava até ao meio dia, depois entrava na fábrica grande às 13h e só saía por volta das 20h, voltando a casa feliz.
- Oh Manel, tu toma lá cuidado com a tua saúde. Então foste trabalhar para a mesma coisa, devias arranjar era uma coisa diferente, para alargares as tuas perspetivas profissionais - diziam-lhe os amigos
Mas o Manel era feliz assim, conciliou horários e aprendia agora numa fábrica grande e crescia como homem. Continuava a sorrir e assobiar.
Certo dia o Manel foi convidado para fazer umas horas ao fim de semana no gabinete de contabilidade, mesmo ao lado de casa, e nem pestanejou, aceitou logo e era agora nesse gabinete que passava o sábado. Foi o pânico na aldeia, a loucura do Manel não podia ser aceite. Três, para quê trabalhar em três sítios diferentes?
- Oh Manel, não sejas ganancioso, tu estavas tão bem na vida, para que é que te vais meter em mais trabalhos?
A estas palavras juntavam-se julgamentos maldosos e olhares duvidosos. Mas o Manel era feliz, e sorria e assobiava. Mas ainda lhe faltava qualquer coisa então, aos domingos de manhã encontrou um novo emprego, de bola vermelha no nariz animava a pediatria do hospital da cidade mais próxima. Neste emprego o pagamento era imediato e em sorrisos e abraços. E o Manel era feliz.
Escandaloso este Manel que procura a felicidade. Ganancioso este Manel que partilha a sua vida. Tolo este Manel que vive. Na aldeia todos lamentam a vida do Manel e os caminhos que escolheu, mascarando a inveja e a incapacidade de se fazerem e aceitarem felizes. O Manel sorri e assobia. O Manel é feliz.
Fez-se homem este Manel, caminhou em terrenos montanhosos, e em prados verdejantes, mas tornou-se no melhor homem que alguma vez poderia ter sido. Por todo o lado de ouve falar do Manel, que calcorreou a vida, com coragem e determinação, com ouvidos moucos à maledicência, e um sorriso e um assobio. O Manel foi feliz como ninguém, aprendeu a aceitar os momentos menos bons e a superá-los, com um sorriso. Os outros, esses preocupados com a vida que não era a deles, projetavam no Manel as suas frustrações e medos. Para ser feliz há que avançar. E o Manel era feliz.
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Texto: Susana Silva
Imagem: Pixabay

Fantástico! Como é real...parabéns Susana pelo excelente conto. Vou partilhar.
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