Inspirei,
enchendo-me de coragem. Abri a caixa. Um cheiro a bafiento ocupou todo o espaço entranhando-se na minha pele, penetrou até ao âmago da minha existência. Uns papeis envelhecidos pelo tem, dobrados pelas tuas mãos frágeis, que afastei quase sem lhes tocar. E no fundo, ei-lo. Um dourado baço, um brilhante ausente, uma pedra preta, um coração inteiro estilhaçado pela tua partida. Lá dentro o teu segredo mais bem guardado. Como num cofre. Tremiam-me as mãos, o corpo gelado e a alma ausente. A saudade pendia pelo meu rosto num pranto estranhamente contido. Peguei no medalhão e senti o teu cheiro, o teu calor, o teu toque suave e engelhado a acariciar-me o rosto. Sorri. Apertei-o com força contra o peito, como se o pudesse integrar no meu próprio coração, na minha vida, na minha essência. Queria perdurar aquele instante, adiando o encontro que temia. Não sei se era entusiasmo, não sei se era medo. Mas abri o coração. Olhando fixamente com admiração. Deixaste-me o teu maior tesouro, disseste-me, escondido neste medalhão. Uma nuvem de confusão cobriu todo o meu entendimento, e lá ao fundo quase que podia jurar que te vi a sorrir, acenando com a cabeça. A tua certeza. A minha dúvida. O teu maior tesouro, guardado num cofre que trouxeste ao peito dias e dias sem conta.
Abri. E lá me encontrei.
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