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Mensagens

estava tudo tão quieto

Estava tudo tão quieto menos o meu coração que batia acelerado. A minha respiração descompassada fazia antever o momento final que surgiria como o momento alto de um filme que já fizera rodar vezes sem conta na minha cabeça. O silêncio da noite escondia o medo que corria nas minhas veias, ouviam lá ao longe as bombas sem cessar e eu naquele barco, escuro como breu, sentia a mão da minha mãe que me apertava até doer. Mas estava bem assim. Cada segundo parecia demorar horas e agora uma chuva miudinha escorria pelos nossos cabelos e misturava-se na nossa pele retirando dela o pó daquela terra, que era a minha, e que agora deixava, em angústia, para trás. Ao longe viam-se umas luzinhas muito ténues que pareciam multiplicadas pela chuva que caía e que, a mim, me pareciam as estrelas que observava do telescópio que tinha no meu terraço, ao colo do meu pai que trazia para casa o trabalho de astrónomo. O meu pai… que num dia saiu do abrigo para ir buscar comida e nunca mais voltou. Q...

Sonho

Na incessante correria dos dias deixámos de sonhar, os sonhos que tínhamos enquanto crianças e jovens e que nos faziam voar por entre as montanhas do medo e da angústia perderam-se e, hoje, esquecemo-nos de sonhar, já não sabemos sonhar. Temos em nós sonhos que não nos atrevemos a sonhar assoberbados pelas tarefas do dia a dia ou letárgicos na monotonia de outros. Deixamos para trás os nossos sonhos justificando, a nós próprios, que são inatingíveis e nos fariam gastar tempo e recursos tendo por base a velha máxima “quanto maior o sonho maior a queda”. Impomos à nossa vida o peso da seriedade que não permite a leveza do sonho… e tornamo-nos pele, ossos e músculos robotizados. Mas pode ser hoje o dia, em que, olhando sem medo para dentro encontremos o nosso velho sonho e frente a frente com ele deixemo-nos acreditar. Acreditar que sonhar faz parte da vida, que sonhar também é viver e que quanto maior o sonho maior a nossa resiliência para o perseguir. E que um sonho faz-se, ta...

esta balada que te dou

Esta balada que te dou, cantada, bem baixinho ao ouvido, fala-te do quanto me fizeste sorrir, das lágrimas de felicidade que contei a teu lado. Lembras-te das caminhadas que fizemos na serra, dos domingos enrolados no sofá a ver filmes tontos, das vezes que te lia as histórias que mais gostavas e tu sorrias, porque me amavas? São lágrimas de saudade que rolam pelo meu rosto, ainda estás aqui, mas eu sei que vais partir. É a hora e o momento. Corre como corríamos pela praia sentindo a areia molhada e a água num vaivém. Vai meu bem. Vai… em breve irei ter contigo.   Agora que partiste, partiu contigo a minha balada e o meu coração dilacerado grita sem proferir nenhum som. As lágrimas de felicidade dão lugar a torrentes de lágrimas de desespero, como poderei viver sem ti? Quero partir contigo. Quero angustiar-me até não mais aguentar e a morte me levar, contigo.

a casa de bonecas

Dlim, dlão… A campainha da porta tocou e uns ouviram-se uns passinhos aproximarem-se. A porta abriu-se e a pequena figura surgiu com dois totós no alto da cabeça e lábios pintados, sardas no rosto e pestanas grossas e grandes. Uma saia de peito muito rodada onde se poderiam descobrir pelo menos três camadas de tecido, e uma camisola com mangas em balão. ― O que deseja? ― inquiriu com voz aguda que contrastava com o ar envelhecido e curvado do corpo que a libertava. ―É hora de almoço Dona Mimi. ― disse com paciência a Lurdes ― É menina Mimi. ―afirmou com aspereza ― hoje almoço em casa. ― Almoça em casa como, Mimi? ― Ora, vou ali à minha cozinha e preparo alguma coisa. Hoje não quero sair de casa. ― afirmou perentoriamente. E prosseguiu chamando a amiga com quem partilhava o espaço ― Tatá, já fizeste a sopa? De lá de dentro uma voz grave que se esforçava por ser mais aguda responde: ― já está pronta a sopa e a mesa posta. Lurdes colocou a mão na testa contendo uma g...

A cavalo dado

Mesmo que a cavalo dado, nem tudo o que reluz é ouro. E não fosse o pássaro na mão a galinha enchia o papo. Depois o gato escaldado morreu de velho, porque quem tem olho é rei, mesmo que seja quem ri por último. Certo é que uma mão lava a outra e nenhuma atira pedras ao vizinho, apesar de ser tempo de guerra e o mal vir a caminho. No final, mais vale quem Deus ajuda do que quem conta um conto e depois quem fala muito põe o rebanho a perder e se vem o pastor põe-lhe uma vara na mão e vê se os outros baixam as orelhas. Para terminar, diz o roto ao nu que a galinha da vizinha é boa cozinheira, mas morreu solteira, porque a justiça tarda e a chuva fica até que fura. Disse-me que quem tudo quer não se recolhe depois de deitada e lava-se em casa, nem faz orelhas moucas às vozes de burro. Mas águas passadas e tudo fica bem porque ao bêbado e ao tolo põe-lhe Deus a mão por baixo.

meias no chão

A feira acabou E as meias ficaram no chão. M oradores hostis os deste largo E m alvoroço por um par de meias. I sso seria caso de jornal, A gora que tudo se ausentou. S eguiram presos pela polícia N os carros da patrulha, O que diziam é impronunciável. C alavam palavras bonitas, H á horas aflitas A quilo foi uma pancadaria. O ra agora, porque seria?

O sol nasceu

Aqui estou, deitado sobre este capim iluminado por um céu estrelado que admiro como se fosse a última vez. Talvez seja mesmo. A roupa encardida e ainda molhada colada ao corpo é o meu abrigo e a minha proteção nesta noite escura. A lua ausentou-se e permitiu um silêncio que consigo sentir, embora nos meus ouvidos este latejante zumbido que me faz temer até a leve brisa que faz dançar a mais fina erva. Inspiro profundamente e sinto o ar morno a entrar pelos meus pulmões o coração parece desacelerar e eu sinto-me em paz. Que vida feliz que vivi. Vou sentir a tua falta Amália, e dos teus fados chorados. Leve vento entrega este beijo que te dou colando-o ao rosto da minha mãe, ela vai saber. A manhã está para chegar e o meu destino prestes a mudar. Peço a Deus que tenha compaixão de mim, antes a morte que a captura. Lá vem ele, é o sol, porque não se demora? A noite que me protegia terminou, ouço já os passos que me procuram e sinto, encostado aos olhos, o cano que me ceifará...

a fonte

A fonte secou E nada mais brilhou. Ficou a nascente sem parir E até a foz deixou de existir. No leito jazem os peixes moribundos E as algas encorrilham como seres de outros mundos. O sol torna as pedras do rio ardentes E na margem, bebedouros secos e vidas ausentes. Oh pérfida vontade de tudo teres e de em tudo estares Oh eterno poder que desejas ter sem querer Inundas o coração de tudo com a escuridão que de ti emana E tudo arde até se extinguir num ocaso silencioso, o fim. E tu… pacientemente vês a ruína que causaste De cigarro na boca, sentado na rocha Enquanto tudo sucumbe… E a fonte secou. E tudo morreu. E o tu sou eu.

Eu nasci à sexta feira

“Eu nasci à sexta feira, com barba e cabeleira, mais parecia um anticristo. Tarantantam…” Alfredo descia a ladeira de sachola ao ombro cantarolando e animando todos à sua passagem. ― Boa tarde, Ti Nel! ― dizia, enquanto respeitosamente levantava a boina axadrezada que trazia na cabeça. ― Senhor prior António, a sua bênção. ― fazendo uma vénia ao velho e barrigudo padre da aldeia. Eram assim os fins de tarde mais animados   em Piurça, uma aldeia no meio da serra, onde nem Judas passou para lá perder as botas. Os mais jovens haviam fugido para as grandes cidades, a maioria para o Porto, mas não Alfredo. Alfredo gostava da lavoura e habitava na casa que fora dos seus pais, Deus os tenha, cultivando uma porção de terra, que também lhe pertencia, junto ao rio. Juntava-se às merendas nos arredores, debaixo dos grandes carvalhos que por lá existiam em grande quantidade, e ajudava todos na aldeia em troca de uma sandes de presunto ou de umas rodelas de chouriço fumado. ...

cadeira de três pernas

Era dia de mercado, o dia mais agitado da semana. A vila em peso, deixava os seus afazeres medievais para ir ao mercado trocar as suas moedas de bronze por produtos necessários à sua sobrevivência. Afonso seguia com os seus pais e com os três irmãos mais novos passando revista às fileiras de barracas que se amontoavam naquele descampado agora imensamente povoado. Grelos e nabos em todas as bancas, só de olhar e de lembrar o sabor amargo do nabo sentia-se nauseado. A mãe parou no ferreiro, precisava de uma nova foucinha que a dela partira durante a semana ao apanhar pasto para os animais. Enquanto esperava Afonso reparou num moço que amontoava cadeiras preparando-se para as vender. Fazia-o com afinco, mas desajeitado, mas o que mais surpreendeu Afonso é que as cadeiras só tinham três pernas. O vendedor coloca um letreiro que diz “10 moedas”… Afonso ficou boquiaberto, dez moedas era o que uma família de muito trabalho conseguiria angariar durante um mês. Riu-se com desdém do parv...