“Eu nasci à sexta feira, com barba e cabeleira, mais parecia um anticristo. Tarantantam…” Alfredo descia a ladeira de sachola ao ombro cantarolando e animando todos à sua passagem. ― Boa tarde, Ti Nel! ― dizia, enquanto respeitosamente levantava a boina axadrezada que trazia na cabeça. ― Senhor prior António, a sua bênção. ― fazendo uma vénia ao velho e barrigudo padre da aldeia. Eram assim os fins de tarde mais animados em Piurça, uma aldeia no meio da serra, onde nem Judas passou para lá perder as botas. Os mais jovens haviam fugido para as grandes cidades, a maioria para o Porto, mas não Alfredo. Alfredo gostava da lavoura e habitava na casa que fora dos seus pais, Deus os tenha, cultivando uma porção de terra, que também lhe pertencia, junto ao rio. Juntava-se às merendas nos arredores, debaixo dos grandes carvalhos que por lá existiam em grande quantidade, e ajudava todos na aldeia em troca de uma sandes de presunto ou de umas rodelas de chouriço fumado. ...