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Mensagens

Loucura boa

- Era um café por favor… - Com certeza… - Só mais uma coisa, por favor, pode olhar para mim? A senhora olhou para mim com ar quem me ia esmurrar e incrustar a minha barba pente dois no interior da minha pele. - E… é só!! - acrescentei, com um sorriso que, convenhamos estava mesmo a pedi-las. Enquanto a senhora foi dentro do centenário estabelecimento, levantei-me num salto e convidei o mimo que fazia de estátua, mesmo à frente da esplanada para se sentar comigo na mesa. Ele relutante, mas suficientemente louco, aceitou, mesmo a tempo da chegada do meu café. - São três euros, por favor. Respondeu-me a senhora olhando-me nos olhos e sorrindo. Eu estagnei surpreendido pelo preço do café. À minha indignação a senhora respondeu prontamente: - É 1€ pelo café e 2€ por olhar para si, hoje estamos com promoção e o sorriso é grátis. Soltei uma gargalhada pela resposta à altura. E acrescentei: - Então traga-me mais dois cafés e duas natas, é para este meu amigo ...

A dança

A música fazia-se ouvir por entre a porta entreaberta. Uma melodia de bailarico misturada com risadas e gritinhos. Ele, sentado no seu cadeirão olhou-a com amor. Ela dormitava, deitada naquela cama de sempre, alheia a tudo. Pela frecha da porta a luz amarela que entrava era interrompida por sombras humanas das pessoas que passavam naquele corredor com passos apressados. Ele esticou-se para tocar na mão da sua amada, mas quase que caia do cadeirão, pelo que depois de um suspirou, recostou-se contentando-se com a visão perfeita que acolhia nos seus olhos. Sabia que por detrás daquelas pálpebras cerradas, uns olhos azuis cheios de vida emanavam a felicidade de uma vida que parecia jazer naquele inerte corpo. Ela parecia sentir-lhe os pensamentos porque sorria, marcando ainda mais a sua cara engelhada pela vida. Tantas engelhas felizes e até a cicatriz da testa, feita pelo filho António que, com os seus três anos, pegou num copo e partiu-o mesmo no meio da testa da mãe. Que aflição q...

Dói

O que dói? Dói a pele de onde não consigo sair para ir em busca de mim mesmo. Dói o sentido inverso da vida que não encontra a sua direção. Dói o tempo que não para e não sara. Dói a ausência de mim mesmo. Escondido por entre a luz do dia faço noite em tudo o que toco, em tudo o que sinto. Do sol faço noite e da alegria a tristeza. Os meus dias são inúteis e as minhas mãos paradas e vazias, os meus pés teimam em não andar e os meus olhos ainda conseguem ver mas sem entender. Dói-me o tempo que ocupo com a vida vã e que gasto e desgasto em desamor. Dói este mar de saudade daquilo que nunca fui e dos sonhos que não persegui e que continuo, no meu silêncio, a negar. Construo castelos de um dissipado nevoeiro que envolve todo o meu ser e nele esconde a essência do que me tornei. Sei-o de cor. Sei-o, e dói-me sabê-lo. E nesta inércia continuo a procrastinar com desculpas estéreis e escusadas que ninguém quer ouvir. A ignorância nos outros olhos, a indiferença nas outras p...

Se o teu abraço

E se o teu abraço não for suficiente? Se não me agarrar à vida toda em toda a vida, nem que seja por um só segundo. Se for um abraço, sem braços fortes que sustentam com leveza a dura vida.   Se o teu abraço não acontecer naquele instante que muda o mundo e que tudo faz sobrevir.   Se o abraço não tiver o sentido que me faz sentir. Se não for um abraço íntimo de quem não se intromete, mas faz ser e crescer.   Então baixa os braços, não abraces, vira as costas e vai antes que adore esse teu braço e perca tempo nesse tempo de abraço. ---- Texto: Susana Silva Imagem: pixabay

o encontro

Aninhada na berma do passeio sentia a chuva que caia e lhe escorria pela pele. Queria misturar-se naquele lamacento espaço e desaparecer por entre as pedras da calçada. Tudo terminara minutos antes. Perdera o homem da sua vida, o seu trabalho e o seu sonho. Com os joelhos encostados ao peito ardia num sofrimento infinito. Era o cair da noite e a luz na cidade era parca. As pessoas corriam tentando fugir entre as gotas da chuva e ela deixava-se ali, inerte. Até que um trovão assustou de tal modo um pobre homem que ele tombou em cima dela. Ela suportou o peso daquele corpo com o seu próprio corpo e elevou-o. Ao levantar os olhos ela vê um pobre e sombrio homem, muito aprumado vestia fato e chapéu preto, os óculos molhados pela chuva e uns pingos de chuva a escorrer pelo bigode. - Queira desculpar-me, minha menina. – Dizia enquanto estendia a sua mão para ajudar a levantá-la. Ela correspondeu e ali frente a frente com ele olhou-o nos olhos inquietos. - Permita que lhe ofereça um...

Esquissos autobiográficos

Sonhava com o plano A, estudou no plano B e tornou-se o plano C Sonhava   aos trinta ter um emprego com que não mais se preocupasse, ganha para pagar as contas fazendo uma gestão apertada, do que recebe, mais de metade são impostos e gastos diretos, sem subsídios, dias de férias e afins. Ainda assim gosta do que faz, e conforta-se com um encolher de ombros (digo, de vida) Sonhava viajar e conhecer o mundo, atravessou a fronteira para comprar caramelos, dirigir uma oração ao Santo, para comer uma paella que findara e que foi substituída por um bife. Nunca andou de avião, nem de mota. Não gosta de conduzir embora passe cerca de 8 a 10 horas da semana ao volante, de manhã, ao almoço e ao fim do dia pelos caminhos de Portugal. Adora cozinhar e comer, almoça no carro estacionado na berma da estrada, em menos de dez minutos e janta em menos de três. Defende o tempo em família, mas passa cerca de 10 a 12 horas por dia fora de casa, resta-lhe o beijinho até amanhã. Talhou uma...

Histórias de mães

São seis da manhã quando o despertador toca. Quase nem consigo abrir os olhos, mas a esforço levanto-me da cama. Aqueço uma chávena de café com leite e faço uma torrada, que vou comendo enquanto estendo a roupa que a máquina acabou de lavar. Aqueço o meu almoço e coloco-o na marmita. Aqueço o leite para os miúdos e uma malga de cereais, corto um kiwi em pedaços e acrescento uns frutos secos. Sinto frio. Vou ao quarto dos meninos, acordo primeiro o mais velho, sussurrando-lhe ao ouvido: - Pedro está na hora. Bom dia. Dou-lhe um beijo, destapo-o, estimulando aquele lento despertar. Quando volta da casa de banho já tem a roupa em cima da cama e começa a vestir-se. - Joãozinho, vamos lá meu amor. Pego no mais novo ao colo, sem que ele abra os olhos. Tiro-lhe a fralda que está sequinha e fico muito orgulhosa do meu menino que está a crescer. Visto-o enquanto ele choraminga e levo-os finalmente para a cozinha. - Hoje preparei cereais. Vamos comer rapidamente para não nos ...

No dia mais sofrido da tua vida sonha

No dia mais sofrido da tua vida sonha. Sonha alto. Muito alto. Tens asas enormes e a pequena ilha não é para ti. Nasceste para conquistar um pedaço de terra só teu, em que podes ser tu, com tantos outros. Agarra nessas asas e voa alto, tão alto como o teu sonho. E deixa-te dessa ideia paralisante de que “quanto maior o sonho maior a queda”. Vai, sonha alto, porque quanto mais alto o sonho maior a tua força para lutar por ele. Vai, levanta voo e grita bem alto, o mais que conseguires, precisas de sentir a força que tens em ti. Voa sem medo do que virá. Sem medo do medo que eventualmente sentirás. Esse dar-te-á o tempo que precisas. Mas não permitas que te paralise. Permite-o apenas o tempo favorável. E quando em pleno voo vierem trovoadas e tempestades, aninha-te numa gruta próxima, conforta-te, mistura as tuas lágrimas com as gotas da chuva. Mas, logo pela manhã solheira, rasga novamente os céus. Leva na algibeira apenas o e os essenciais.   O (e os) que te pesarem pelo...

Admiro

Gosto da força, da serenidade de um olhar, de um gesto singelo. Admiro a gratidão, as palmas de um ou de uma nação.  Respeito quem se ergue levanta os braços e estende as mãos.  Honro quem teme, mas tem em si a coragem e a fé.  Enobreço quem chora pela solidão do outro, e vê-se só no meio da multidão.  Admiro quem vê e sente o que os olhos querem dizer e a alma gritar ao mundo.  Admiro a voz forte que se faz ouvir no meio dos murmúrios chorosos.  Admiro quem se emociona com os feitos dos outros, quem chora de alegria e marca no seu rosto as rugas mais bonitas, as rugas da vida. ---- Texto: Susana Silva Imagem: pixabay

a viagem... a triste viagem da esperança

Chegaram à praia durante a noite. Agora restava-lhes esperar na incerteza se viriam. As barrigas roncavam de fome, mas o medo quase os fazia esquecer o quão famintos estavam. A comida terminara ontem. A mãe guardava ainda um bocado de pão duro, em segredo, que esperava dar-lhes quando chegassem ao barco. O bebé chora, e ela dá-lhe a mama seca, na esperança que ele se cale. Ocultos pela noite, aconchegam-se mais uns contra os outros. Deixaram parte da bagagem durante a viagem, e agora só a mochila da mãe e o saco que o irmão mais velho traz. Também o pai se perdeu e ali o deixaram, na beira da estrada. A mãe chora ao recordar o seu amor, o seu único amor. Mas não pode ter saudade quando o medo é o seu principal sentimento. Várias famílias ali estão e outras continuam a chegar. Amontoam-se num estranho silêncio. Trocam olhares numa estranha cumplicidade. Partilham os mesmos medos e as mesmas esperanças. Passaram-se algumas horas e apenas os mais novos dormiram. Já estará quase a aman...